E por essa rua, eu continuo andando, tentando não me abalar, tentando não deixar cair, tentando não deixar... tentando ser de ferro, segurando as esperanças pelas pernas, para que elas não pensem em fugir nem por um segundo. E pela rua eu vou, encarando o ar parado, o calor pesado, a luz seca da lua.
Os ecos mudos do meu pé não atingem meus ouvidos, inundados pelo silêncio do mundo, pelo silêncio que ensurdece. Eu continuo respirando sem dificuldade, o que só mostra que eu vou continuar aqui por um bom tempo e nada está perto de acabar, eu vou ter que ser forte, não há outro jeito. Porque eu não sei o que acontece se eu não for, e, sinceramente, eu tenho medo do que pode acontecer.
Vê aquela porta aberta? Aquela ali, de madeira, aberta? Está começando a chover e pela porta aberta eu posso sentir o cheiro do asfalto deserto sendo molhado, enquanto olho para a lua, sentado no pé da escada. Uma vez, ouvi uma história que dizia que a palavra "lunático" vinha da palavra "lua", pois alguma das muitas civilizações antigas da história acreditava que quem olhasse para a lua, endoidecia. A lua deixava as pessoas lunáticas.
Eu devo ser um lunático. Ou eu devo ser alguém que cansou antes mesmo de começar. Ah, eu esqueci de falar sobre a porta! Sim, aquela de madeira que está aberta, mostrando a chuva cair devagar e elegante, iluminada pela luz amarela dos postes. Eu vou sair por aquela porta. Eu vou sair na chuva, porque eu quero me molhar. Eu vou sair sem ter para onde voltar. Sim, eu vou sair e enfrentar as gotas leves da chuva fraca e interminável. Eu vou sair e enfrentar o ar frio e eu vou cantando pela rua; cantarolando alguma música qualquer só para mim. Só para eu ouvir.
quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012
sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012
Emma - parte 2
A casa estava em silêncio quando Emma acordou. Ele não estava do seu lado, onde dormira. Ela deixou a cabeça cair no travesseiro suspirando, lembrando da noite passada, com um pequeno sorriso nos lábios, ainda sentindo resquícios do prazer que ele lhe proporcionara de uma só vez, após meses fora.
Um barulho na sala lhe chamou atenção. Ela se levantou, jogando o casaco de pele sobre o corpo nu e foi em direção a porta. Ela encostou um ouvido na madeira fria e ouviu os gemidos ficando cada vez mais altos. Ela abriu a porta.
Havia uma mulher desconhecida (pelo menos para Emma), nua, deitada no divã, com ele entre suas pernas, suando infernalmente. Ele parecia um animal, urrando como um touro. A mulher gemia não se sabia se de prazer ou dor, sendo este o motivo mais provável. Ele ouviu a porta se abrindo e olhou para Emma, petrificada no vão da porta, assistindo a tudo aquilo. Os olhos dela mais arregalados que nunca, a pele sem um vestígio de cor, a boca entreaberta, as mãos que apertavam o casaco tremiam violentamente.
Ele a olhou desafiadoramente, desaforadamente, sorrindo com o olhar, e metendo mais e mais forte na pobre da outra mulher. A cena durou por alguns minutos, onde ele era o o único que se mexia, sem nunca tirar os olhos de Emma.
Depois de algo que pareceu interminável para as duas mulheres, ele fechou os olhos e soltou um urro, que terminou com seu corpo caindo sobre a mulher, a esmagando, como se já não bastasse a outra dor que ela sentia. Quando ela finalmente abriu os olhos e viu Emma parada no vão da porta, começou a gritar histérica.
- SAI, SAI DE CIMA DE MIM!
Ele ria de satisfação, ainda jogado sobre a outra, que o empurrava sem resultados.
Um barulho na sala lhe chamou atenção. Ela se levantou, jogando o casaco de pele sobre o corpo nu e foi em direção a porta. Ela encostou um ouvido na madeira fria e ouviu os gemidos ficando cada vez mais altos. Ela abriu a porta.
Havia uma mulher desconhecida (pelo menos para Emma), nua, deitada no divã, com ele entre suas pernas, suando infernalmente. Ele parecia um animal, urrando como um touro. A mulher gemia não se sabia se de prazer ou dor, sendo este o motivo mais provável. Ele ouviu a porta se abrindo e olhou para Emma, petrificada no vão da porta, assistindo a tudo aquilo. Os olhos dela mais arregalados que nunca, a pele sem um vestígio de cor, a boca entreaberta, as mãos que apertavam o casaco tremiam violentamente.
Ele a olhou desafiadoramente, desaforadamente, sorrindo com o olhar, e metendo mais e mais forte na pobre da outra mulher. A cena durou por alguns minutos, onde ele era o o único que se mexia, sem nunca tirar os olhos de Emma.
Depois de algo que pareceu interminável para as duas mulheres, ele fechou os olhos e soltou um urro, que terminou com seu corpo caindo sobre a mulher, a esmagando, como se já não bastasse a outra dor que ela sentia. Quando ela finalmente abriu os olhos e viu Emma parada no vão da porta, começou a gritar histérica.
- SAI, SAI DE CIMA DE MIM!
Ele ria de satisfação, ainda jogado sobre a outra, que o empurrava sem resultados.
Emma - parte 1
Ela pôs o disco pra tocar, abriu as cortinas brancas, revelando a luz celestial do céu tardio. Segurando o pano extra do vestido de veludo verde, Emma foi até o outro cômodo e parou em frente a penteadeira, arrumando a colmeia que fez com os cabelos. Tomou mais um gole do drink que repousava ao lado da coleção de batons de tons claros.
Os olhos injetados de Emma viam seu reflexo sem enxergar muito bem. Ela deu um suspiro de derrota, deixando a cabeça pender um pouco pra frente. Ela se levantou, ajeitou a coluna, estufou o peito, ergueu o queixo. A essa altura, ela já parecia uma verdadeira estátua grega, com a maquiagem marcando bem o queixo, os olhos profundos e frios. Ela voltou para a sala com o drink entre os dedos e sozinha começou a dançar a balada que tocava, cantarolando as partes que sabia, imaginando que estava em uma grande apresentação, cantando para uma multidão infinita de gente escura.
Em alguma poltrona havia um casaco de pele de raposa, que ela logo pegou, no calor da empolgação, jogou sobre os ombros e continuou sua apresentação que entraria para a história. Ela parou no fim da música, exausta demais para performar a próxima. Olhou ao redor mais uma vez, protegendo os olhos da luz que entrava pelos vidros da janela. Ela foi pra cozinha, pôs o copo na pia meticulosamente limpa. A campainha tocou. Ela correu, da forma que era possível correr com um salto, enquanto se segura a calda de um vestido e de um casaco de pele, tentando não se despentear.
Ela parou a música (mas ela continuava tocando na sua cabeça) e abriu a porta com o sorriso mais esplendoroso que possuia. Ela se concentrou no que ia falar, se preparou para a voz perfeita:
- Na hora... - e abriu os dentes em uma cena particularmente sádica. - Entra.
Ele deu um passo e parou em frente a mulher, com o corpo rente ao dela, as bocas quase se tocando. Ele passou os braços ao redor da cintura dela e a puxou para si, dando-lhe um beijo francês ardente. Ela se deixou levar. Ele a levou até um divã e a deitou lá. Foi até a vitrola e pôs a música para tocar, depois foi à cozinha e preparou mais dois drinks para eles. Ela sentada, apenas observava.
Ele a entregou a taça e se sentou à sua frente.
- Então... onde você esteve esse tempo todo? - ela deu mais um sorriso, mas mais fraco, indagador, tímido, temeroso com os olhos baixos, vergonhosos de olhar pra cima.
- Te sustentando. - Ele respondeu olhando pra fora, daquele jeito descontraído característico dele.
-Ah...
- E você? O que tem feito? - ele a olhou, procurando seus olhos. As pernas abertas, os cotovelos apoiados nos joelhos e o drink entre as duas mãos. A cabeça um pouco caída para o lado. Os olhos indagadores, desafiadores, de rei, de homem.
- Cantando...
- Mas você não canta. Você não sabe cantar.
- Mas eu gosto de cantar junto...
Ele riu.
- Então canta. Deixa eu ouvir você cantar.
- Não... - ela respondeu baixinho, sorrindo, as bochechas vermelhas, o cabelo caindo um pouco
- O quê? Eu não te ouvi. Você já está cantando? Eu não ouvi. - ele pôs a mão em concha no ouvido e se inclinou mais para perto.
- Eu não cantei... - ela sussurrou sem o sorriso, mas ainda olhando para o chão.
- O quê?
- Eu não... eu não cantei - ela olhou para ele, ainda com medo nos olhos, as mãos começando a tremer. Ela não olhava diretamente nos olhos dele, mas ele ainda assim podia sentir o medo saindo dela.
- Você não disse que sabe cantar? Eu quero ouvir você cantar. - a voz dele saiu dura, saiu ordem.
Ela o olhou com os músculos tesos, os olhos abertos, prevendo o que viria a seguir.
- CANTA - o rosto dele estava vermelho, os olhos arregalados, a veia no pescoço saltando. O cabelo caindo por cima da testa, a mão fechada em punho batendo na mesa de centro. Ela levantou de um pulo, o casaco de peles caiu no chão. Ela pôs a taça na mesa um pouco torta a essa altura. Ela andou até a vitrola, de costas para ele, colocou a música para tocar outra vez e começou a cantar o que sabia.
- Vira pra mim. - ela se virou com a cabeça totalmente caída, os braços ao redor do próprio corpo e continuou cantando.
- Levanta a cabeça - ela levantou rápido, mostrando o rosto preto da maquiagem que escorria com o choro silencioso e continuou cantando. Ele levantou, ela levou um susto, piscando e falhando a voz, enquanto sua cabeça se esquivava instintivamente do que ela sabia que viria a seguir.
- Dança comigo? - ela concordou com a cabeça, apertando os lábios. Ele lenta e carinhosamente segurou seus braços e começou a conduzi-la na dança.
- Você já pode parar de cantar se quiser. - a voz doce no ouvido dela. Emma suspirou e deitou a cabeça no ombro dele, aliviada.
quinta-feira, 26 de janeiro de 2012
Lolita
- Alô? Oi, Bê... você não voltou pra casa?
Ela tentava sorrir para fingir naturalidade e alegria, forçando e contrariando os músculos do rosto e os olhos tristes e desesperados.
Era um final de tarde de um verão extremamente quente. Lolita sentada na cama, cruzando e descruzando os pés, que só há pouco tempo atrás conseguiram alcançar o chão. Com uma mão segurava o fone no ouvido, com os dedos da outra, enrolava o fio esticado do telefone pousado no chão, nervosamente. Os cabelos claros amarrados, um short jeans bem curto e uma camiseta florida lhe davam um ar infantil, de criança besta, intensa, que não sabe o que quer e quer tudo.
- Eu fiquei esperando... - ela sussurrava submissa.
- Que nem uma criança boba. - agora timidamente, com embaraço e frustração.
Ela começou apenas a ouvir e seu sorriso tentou se manter vivo por várias vezes seguidas, morrendo todas as vezes. Aos poucos, os olhos foram voltando a brilhar, o sorriso foi começando a tomar força com as palavras mudas do telefone. Ela sorria para acreditar que estava tudo bem, que ainda havia esperança e que ele ainda ia voltar. Ela sabia que ele não ia voltar e seu coração ardia.
Conforme ele falava, ela ia ficava avermelhada, tímida, com uns dentes brancos e infantis na boca. O fio vermelho se enroscando mais e mais nos seus dedos conforme a luz do sol se esvaia do quarto.
- Eu ainda quero ser sua bonequinha. - disse com voz amarrada, impedida, os olhos começando a vazar, as mãos tremendo. Ela baixou a cabeça, encostando o queixo no peito. Ela não estava mais tentando sorrir e só chorava silenciosamente, soluçando levemente:
- Tá... tá bom... - ela balançava a cabeça concordando.
- Tá... - ela limpou as lágrimas com a manga da camiseta.
- Tá... - fungou.
- Também te amo. - num último sorriso, de saudosismo antecipado e conformismo.
Lolita deixou o fone cair no colchão junto com seu corpo, que só tremia e soluçava.
Lolita se levantou, pegou a jaqueta vermelha, a mochila e saiu do quarto escuro do motel, perdido em algum canto de uma estrada de terra.
Ela tentava sorrir para fingir naturalidade e alegria, forçando e contrariando os músculos do rosto e os olhos tristes e desesperados.
Era um final de tarde de um verão extremamente quente. Lolita sentada na cama, cruzando e descruzando os pés, que só há pouco tempo atrás conseguiram alcançar o chão. Com uma mão segurava o fone no ouvido, com os dedos da outra, enrolava o fio esticado do telefone pousado no chão, nervosamente. Os cabelos claros amarrados, um short jeans bem curto e uma camiseta florida lhe davam um ar infantil, de criança besta, intensa, que não sabe o que quer e quer tudo.
- Eu fiquei esperando... - ela sussurrava submissa.
- Que nem uma criança boba. - agora timidamente, com embaraço e frustração.
Ela começou apenas a ouvir e seu sorriso tentou se manter vivo por várias vezes seguidas, morrendo todas as vezes. Aos poucos, os olhos foram voltando a brilhar, o sorriso foi começando a tomar força com as palavras mudas do telefone. Ela sorria para acreditar que estava tudo bem, que ainda havia esperança e que ele ainda ia voltar. Ela sabia que ele não ia voltar e seu coração ardia.
Conforme ele falava, ela ia ficava avermelhada, tímida, com uns dentes brancos e infantis na boca. O fio vermelho se enroscando mais e mais nos seus dedos conforme a luz do sol se esvaia do quarto.
- Eu ainda quero ser sua bonequinha. - disse com voz amarrada, impedida, os olhos começando a vazar, as mãos tremendo. Ela baixou a cabeça, encostando o queixo no peito. Ela não estava mais tentando sorrir e só chorava silenciosamente, soluçando levemente:
- Tá... tá bom... - ela balançava a cabeça concordando.
- Tá... - ela limpou as lágrimas com a manga da camiseta.
- Tá... - fungou.
- Também te amo. - num último sorriso, de saudosismo antecipado e conformismo.
Lolita deixou o fone cair no colchão junto com seu corpo, que só tremia e soluçava.
Lolita se levantou, pegou a jaqueta vermelha, a mochila e saiu do quarto escuro do motel, perdido em algum canto de uma estrada de terra.
sábado, 21 de janeiro de 2012
Lobotomia
No último dia de inverno, com a neve derretida
enchendo o vilarejo de barro, Rosemary se sentava no chão de madeira da sua
casa, enquanto olhava pela porta aberta. Um pedaço do sol já podia ser visto.
Aos poucos, sua luz foi entrando, invadindo, dando as boas vindas, com um sorriso
no rosto, como se fosse uma criança. Lentamente foi subindo pelas pernas nuas
da menina, lhe causando arrepios e um fraco sorriso. Havia muito tempo que nada
dava tanto prazer à menina como aquele humilde pedacinho de sol, até que ele
finalmente bateu em seu rosto. Ela alegremente sentia como se tivesse morrido.
Rosemary sabia que não ia para o céu quando morresse.
Sabia que não era digna de estar lá, próxima ao grande e bom deus tão
prometido. Ela sabia que não havia salvação para os seus treze anos tão pesados.
Mas naquele momento, com o sol acariciando sua pele sem uma ponta de cor,
salvação era a última coisa em que pensava. Depois daquele dia, inclusive, a
ideia de salvação deixaria de fazer qualquer sentido na cabeça dela, assim como
a ideia de felicidade já havia se perdido há muito tempo atrás. O sol iluminava
seu peito vazio, os olhos sem lágrimas, sem cor. Seu coração pesava, suas
pernas pesavam. Os poucos momentos em que a moça se levantava e andava, eram
insuportáveis, como se seus pés fossem feitos de algum metal bem pesado e
incômodo, como se ela estivesse andando dentro da água. Durante um minuto,
enquanto sentia o sol, ela acreditou que poderia deixar seu corpo em paz.
sexta-feira, 13 de janeiro de 2012
Redenção
Foi violento. Foi extremamente violento. Uma violência emocional, aquela que só o coração e o âmago da alma podem sentir. Dois corpos nus encostados. Não, não havia amor entre eles. Mas ali eles estavam. Juntos, se pressionando com uma força desesperada. Ali eles estavam. Em contato. Juntos. Não, não havia desejo entre eles. Não, não havia paixão entre eles. Na verdade, o que havia entre eles beirava o ódio mortal e o nojo envergonhado. Não havia nada entre eles.
Eram dois corpos frios, mortos, culpados se tocando. Eram peles de defuntos se tocando, tentando achar o que não se pode achar, o que não se deve achar. Fazendo o que não queriam, mas não podiam deixar de fazer. Foi tão violento, foi dilacerante. Uma alma dilacerada, destruída em infinitos pedaços.
Terminou com vergonha, arrependimento, decepção e gosto de metal boca. Foi sexo injusto. Não, não havia sexo entre eles. Não foi nada, absolutamente nada, apesar de ter tido seu peso, e ah como pesava.
Então, é nessa sexta-feira 13, que ponho minha máscara e visto minhas fantasias, com medo e nojo de olhar nos olhos, de me ver refletido, de ver meus erros, meus demônios. Ver o que eu não quero ver, ver que não há solução, não há redenção, não há exorcismo, não há salvação. O que há é esquecer, mas esquecer sabendo que sempre vai estar lá o que eu finjo não existir.
quinta-feira, 12 de janeiro de 2012
Sete Demônios
A moça estava com o rosto inchado, com o corpo cheio de feridas, com as mãos amarradas a cordas na frágil madeira da cama. Ela parecia tão pesada mas ao mesmo tempo tão frágil, como se fosse derrubar a cama ao mesmo tempo que fosse se quebrar fragilmente em pedacinhos. O suor escorria violentamente pelo seu corpo etéreo, seus dentes já estavam sujos de sangue e a língua triturada pelos dentes rachados. Seu corpo sem nenhuma cor tremia enquanto as cordas repuxavam sua pele tão quebradiça, arrancando mais sangue ainda, enquanto deixava apenas a carne viva(ou não) à vista. Os olhos injetados, sangue saindo das orelhas e secando sobre suas bochechas.
Ao pé da cama havia um espelho de corpo inteiro, meio velho e sujo, equilibrado precariamente sobre pés de madeira já apodrecida, estava virado para ela, obrigando-a a se ver refletida. Ela abriu a boca e do buraco saiu um ronco, algo parecido como o de um porco, só que bem mais alto e longo. O ronco era pesado, como se estivesse carregando uma enorme bigorna consigo.
Montes de tijolos vermelhos, a lama seca e acumulada, passos dentro da água funda. Um piano sendo derrubado, Atlas carregando o mundo, uma pomba morta caindo do alto do céu, turbilhão no fundo do oceano criando redemoinhos azuis e infinitos, ensurdecedores, pacíficos, burocráticos e devastadores.
O exorcista sempre a frente da moça, sempre a encará-la, esperando ela ter coragem de se olhar realmente.
Ops, agora eu percebo um detalhe: as cordas nunca estiveram presas à cama, apenas aos seus pulsos. As janelas e a porta sempre estiveram abertas e a água benta nunca foi necessária, nem daria muito resultado, realmente. Cair no infinito, sentir o ar no rosto sarando suas feridas, esvaziando seu corpo e coração, sabendo que o chão nunca chegará, a obrigando a se conformar com a queda, com o nada, com a sua morte lenta e sua vida infinita. Ser feliz no precipício. Deixar o turbilhão levar, sabendo que não há outra forma a não ser ser feliz.
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